Inconformada com o aumento da passagem de ônibus, que subiu de R$ 2,50 para R$ 3,20, a página no Facebook chamada “Frente pela Mobilidade – Marabá” convocou a população para uma reunião no Tapiri da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), realizada nesta quarta (04), para debaterem como será a reação ao aumento da tarifa.

No apagar das luzes de seu governo, o ex-prefeito João Salame Neto assinou o Decreto de número 243/2016, autorizando o reajuste da passagem do transporte coletivo urbano em 28%. O novo valor entrou em vigor no dia 30 de dezembro, sendo considerado um “duro golpe” por entidades da sociedade civil.

No texto convocatório, a página diz que o aumento é “um verdadeiro absurdo já que, desde o último aumento, em dezembro de 2014, não houve nenhuma melhoria na qualidade do serviço, que continua deixando os usuários horas e horas nas paradas, além de nenhuma nova linha ter sido criada, prejudicando milhares de moradores, como os dos bairros Araguaia e Nossa Senhora Aparecida”.

O CORREIO foi às ruas para ouvir quem utiliza o transporte público. A estudante de pedagogia Letícia Sousa Costa, de 21 anos, diz que o aumento não está de acordo com o serviço prestado pelas empresas Nasson Turismo e TCA.

“Você paga uma passagem para andar em ônibus lotado até Morada Nova, além da demora, estou no ponto há uma hora, já fiquei até duas horas esperando o ônibus passar. Não tem cabimento pagar R$3,20 para gastar três horas até Morada Nova num desconforto desses, lotado, sujo, horrível. Se pelo menos tivesse ar-condicionado como em outras cidades, vá lá”, disse a jovem, acrescentando que também não se sente segura na parada e nem dentro do ônibus.

Já a diarista Antônia Oliveira conta que pega o coletivo quase todos os dias e por causa do aumento recorre a outros meios de locomoção. “Acho um absurdo, porque não tem conforto nos ônibus, a gente anda espremida igual sardinha, se aumentassem e tivesse conforto justificaria, mas não tem. Usar os transportes clandestinos está compensando mais que o ônibus”, revelou a usuária.

Decreto

Segundo informações apuradas pelo CORREIO, o ex-prefeito João Salame justificou que com o reajuste, as empresas Nasson Turismo e TCA firmaram compromisso em investir a curto e médio prazo em melhorias e na ampliação do atendimento dos serviços públicos do sistema de transporte coletivo.

O ex-prefeito também alega que o reajuste é necessário para garantir a sustentabilidade do sistema de transporte urbano, incluindo o reajuste salarial e a reposição nos preços dos insumos necessários à operação da frota.

De acordo com o conselheiro Beto Jamaica, do Conselho Municipal de Transporte, que também aprovou o aumento da passagem, o valor da tarifa não era reajustado desde 2014, quando na verdade deveria ser alterado uma vez por ano.

“Há dois anos, as empresas propuseram aumento para R$2,80, mas os estudantes se manifestaram. Ninguém consegue impedir aumento, ele é necessário para a sustentabilidade do sistema”, disse o conselheiro, lembrando que a proposta inicial das empresas era que a tarifa aumentasse para R$4,10.

Readequação

Segundo o ajuste de contrato, em compensação, no prazo de 30 a 120 dias as duas empresas concessionárias do serviço terão de concluir e operar o novo quadro de horários para a atual frota de coletivos urbanos, inclusive utilizando de tecnologias como software que possibilite o controle da frota e transparência, além da criação e extensão de linhas urbanas, a fim de atender aos bairros Nossa Senhora Aparecida e Araguaia, Cidade Jardim, Francolândia e linha circular para atender aos bairros do Núcleo Cidade Nova.

Em até dois meses, as empresas concessionárias apresentarão garantias de aquisição de mais ônibus para elevar a frota de 44 para 70 veículos, mais reserva, assim como a renovação da frota, retirando veículos com vida útil acima de dez anos, conforme os termos contratuais da licitação ocorrida no governo do então prefeito Maurino Magalhães.

Em contrapartida, a Prefeitura de Marabá ficaria incumbida de homologar o novo regulamento operacional do serviço público de transporte de passageiros urbano, além de criar um grupo de trabalho de mobilidade urbana e concluir o projeto de mobilidade voltado aos serviços de transporte coletivo, apresentando novas rotas e linhas de atendimento, através da proposta de integração via terminal/estações ou ainda via integração temporal, cujos estudos devem ser concluídos no prazo máximo de 120 dias.

Em até oito meses, a TCA e Nasson deverão concluir e operar o quadro de horários para a frota de 70 ônibus dentro do novo sistema operacional de integração a ser elaborado pelo grupo de trabalho criado pela Prefeitura.

A promessa é que a partir de seis meses, o município inicie a execução e recuperação da pavimentação asfáltica das vias de trajeto dos ônibus urbanos, além de ampliar a sinalização de marcos de paradas de ônibus, ainda sem a sinalização vertical, com instalação de, no mínimo, 50 placas. Também deverá ampliar o número de abrigos nas paradas de ônibus, com dez novas coberturas e restaurar as atuais.

Por fim, em até 60 dias, a Prefeitura iniciará negociação com as entidades de classe dos servidores públicos do município para retornar com o uso do VT Card.

Concessionárias queriam aumento da tarifa para R$ 4,10

A Reportagem conversou, nesta quarta (4), com o representante das empresas TCA e Nasson, João Martins. Por telefone, João confirma o congelamento do reajuste por quatro anos e diz que os funcionários ameaçaram parar as atividades.

“Tecnicamente, conseguimos convencer a Prefeitura, o DMTU (Departamento Municipal de Trânsito Urbano) e o Conselho Municipal de Transportes sobre a situação financeira das empresas. Ainda não pagamos o 13º salário e outras contas atrasadas. Se não tivéssemos o reajuste, não iríamos aguentar rodar nem por mais 20 dias. Estávamos com grande risco de paralisação total dos funcionários. Conseguimos negociar com eles o pagamento da primeira parcela do 13º salário no dia 31 de janeiro e a segunda em 28 de fevereiro”, disse o diretor.

João Martins explica que o ideal seria uma tarifa de R$4,10, mas que a população não suportaria esse aumento. Segundo ele, com a diferença de R$0,90 entre a tarifa ideal e a aprovada, a empresa deixa de ter seu ganho real. “Estamos trocando o lucro pela sobrevivência do sistema, acreditando no futuro com o asfaltamento das vias que diminua os custos das empresas e o retorno do VT Card”, falou.

Indagado sobre possíveis manifestações contra o aumento da passagem, o diretor das concessionárias diz que alguém precisa arcar com o prejuízo. “O estudante precisa mesmo pagar menos, mas alguém precisa assumir isso, as empresas não toleram mais o prejuízo. A meia passagem quem arca são as empresas, a gratuidade dos idosos e o transporte de pessoas com deficiência também arcamos e ainda temos a concorrência desleal do táxi lotação que não cumpre com as normativas, roda de qualquer maneira, para no ponto de ônibus e não leva nenhuma gratuidade. Se voltarmos atrás, as empresas param de funcionar”, afirmou.

Questionado também se as empresas de fato cumpririam as determinações de melhorias do serviço prestado, o diretor da TCA e Nasson Turismo diz que “Tudo que foi acordado nós iremos cumprir, já estamos trabalhando para isso”, finalizou. (Jackeline Chagas/Correio Tocantins)

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