Por: Francisco Sulo

Uma das pressuposições mais básicas dos seres humanos normais é a que considera, voluntária ou involuntariamente, a realidade exterior a nossa consciência como totalmente passível de ser conhecida, lembrando que sequer uma consideração epistemológica2 nestes termos é levada em conta em algum momento pelos que assumem essa pressuposição. Noutras palavras, considera-se que o real é como é, conforme se apresenta aos nossos sentidos, o que por si só atribui um forte valor de verdade ao que se diz ou pensa sobre o mundo real. Os filósofos e outros intelectuais talvez atribuam a essa certeza popular a designação de realismo do senso comum, uma variante do realismo epistemológico mais geral, que considera a existência real do mundo externo conforme este se apresenta para o sujeito conhecedor.

Este realismo próprio do senso comum é muito fértil, sobretudo quando se trata de avaliações do momento presente utilizando como referência o passado. Não se esforçando para uma compreensão mais aprofundada do momento presente insiste, não obstante, em se referir ao passado como elemento comparativo, ignorando que se o tal não se esforça para compreender o momento presente muito menos terá uma ideia clara do passado reivindicado como exemplo. Em tempos de crises de toda ordem – política, econômica e cultural – a nostalgia se torna moda e o passado, referência. Todo mundo vira filósofo, historiador, quando não profeta ou quiromante.

Não entraremos aqui em considerações de natureza filosófica sobre epistemologia para calcular (como se isso fosse possível) o grau de correspondência que nossas representações ou significações têm dos fatos ou das coisas reais. Basta que assumamos que essas representações são construções de ordem histórico-cultural, muitas vezes distintas entre si, a depender da variedade dos grupos humanos, sistematizadas pela linguagem, também construto humano para significar o mundo e muitas vezes distinta, em seus conceitos, daquelas que os mais diversos agrupamentos utilizam. Conforme diz José Luiz Fiorin, “… cada língua pode ordenar o mundo de maneira diversa, exprimir diferentes modos de ver a realidade.”3

Neste sentido, qualquer tentativa de compreensão do momento presente requer considerações cada vez mais aprofundadas das relações e nexos causais que os eventos hodiernos mantêm com os do passado, sob pena de redundarmos em conclusões cada vez mais ingênuas e desvinculadas de soluções para os problemas do presente. Longe de pretender isentar quaisquer responsáveis por problemas do presente, este texto objetiva, por outro lado, conclamar o senso comum a análises mais consistentes dos problemas que nos afligem.

A nostalgia é o efeito mais visível dessa percepção popular. Todos as épocas anteriores parecem reluzir como momentos áureos, de progresso moral e de

toda ordem, servindo de lastro para elaborações de alternativas e modelos os mais utópicos, posto que conservadores e retrógrados. É comum se ouvir expressões que associam nosso tempo ao apocalipse iminente, ao se referirem aos índices de tragédias humanas como o cimo da crise das relações entre as pessoas ou ainda aquelas que se referem às tragédias naturais como se estas nunca tivessem acontecido antes. Neste sentido muito contribuem para isso as análises superficiais de natureza religiosa, coerentes com a narrativa evangélica que afirma estar o curso do mundo dos homens seguindo o fim inevitável causado pela corrupção humana em seu mais alto grau. É como se a simples percepção atual de um evento fosse o suficiente para ofuscar um evento parecido no passado, como ocorre, por exemplo, quando a erupção de um vulcão hoje faz ignorar os mortos de Pompeia; quando conflitos bélicos locais e seus mortos de hoje fazem esquecer as terríveis guerras mundiais ou, ainda, quando a percepção de homossexuais no tempo presente faz ofuscar as práticas pederastas da antiguidade ou a licenciosidade das sociedades no decorrer da história.

Mesmo os mais esclarecidos seguem o fluxo mais geral de pensamento, ao rememorarem períodos negros da história como momentos áureos do desenvolvimento das sociedades. É o que muitos hoje fazem, sobretudo nas redes sociais, ao aludirem à ditadura civil-militar como referência para um novo modelo societário, ignorando que o tal momento padeceu dos mesmos males do presente, como a corrupção, por exemplo.

Retornando à questão epistemológica, é como se reconstituíssemos o passado não a partir do que ele realmente foi enquanto experiência histórica real, mas a partir de nossas necessidades atuais, que condicionam nossa subjetividade, fazendo-a forjar mundos ideais onde não existiram, para serem utilizados como referência moral, política, cultural, econômica, conforme nossa visão de mundo e todos os preconceitos que ela carrega.

Werner Jaeger, filólogo alemão, ao empreender uma análise sobre a história da cidade-estado espartana, alertou para a ausência de lastro histórico que caracteriza muitas das construções históricas posteriores sobre o período. O autor se refere aos autores atenienses do século IV a.C., que em meio a uma crise moral e política que sucedeu ao auge do império ateniense, reconstruíram Esparta em seus textos como um referencial de moralidade e austeridade estatal que correspondia mais a exigências presentes dos atenienses do que à Esparta real, histórica.4 Longe de ser um caso isolado de nostalgia fabricadora de utopias assentadas no passado, trata-se na verdade de uma atitude comum de defesa contra as crises do presente, responsável muitas vezes pelos conflitos intermináveis e pela tentativa de ressuscitação de modelos anacrônicos e a-históricos de reformulação do momento atual.

A título de conclusão, é pertinente o alerta para a assunção do caráter subjetivo de nossas representações sobre o real, motivadas por necessidades e temores do presente, assim como para a necessidade igualmente importante da compreensão do momento atual a partir do esforço de conhecimento de suas relações ou nexos causais com situações ou eventos do passado que, se não condicionam absolutamente o presente, pelo menos lhes servem de contribuição ao mesmo tempo em que ajuda a iluminar este presente em busca de soluções menos absurdas.

FSulo1 Francisco Sulo. Licenciado em Normal Superior e Letras, foi professor da rede pública estadual de ensino por quatorze anos. Atualmente é técnico do IBGE. 2 Relativo à epistemologia ou gnosiologia, campo da filosofia que estuda o conhecimento humano. 3 José Luiz FIORIN. Linguística? Que é isso? São Paulo: Contexto, 2013, p.17. 4 Werner JAEGER. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p.112.

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