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Se o carnaval é uma festa democrática, o de Curuçá, no nordeste paraense, é a melhor expressão desse exercício porque, literalmente, só não cai na folia mais tradicional do município quem não quer. Até no quesito fantasia a festa não exclui absolutamente ninguém, já que o principal “adereço”, além da indispensável alegria, está ao alcance de todos e existe em abundância nos manguezais que cercam a cidade.

É da natureza, que em Curuçá esbanja generosidade, que sai a lama, matéria-prima da fantasia usada pelos brincantes do “Pretinhos do Mangue”, tradicional bloco carnavalesco que neste domingo, 7, arrastou cerca de 17 mil pessoas pelas ruas da cidade. Inspirados no tema “Pretinhos do Mangue: só no carnaval de Curuçá e do Pará”, os foliões seguiram por cerca dois quilômetros animados pelos carros de som.

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A tradição começou em 1989, quando dois amigos resolveram ir ao mangue catar caranguejo, mas voltaram de mãos vazias e, em forma de protesto, passaram lama pelo corpo e saíram desfilando pela cidade. “Por iniciativa do meu irmão já estamos há 27 anos trazendo um carnaval que aborda a questão ecológica e mobiliza um número cada vez maior de pessoas. Essa é uma festa da paz, e as pessoas vem até aqui justamente porque sabem que vão poder se divertir de forma segura, sem violência”, diz o presidente da Associação Socioambiental e Cultural Pretinhos do Mangue, Edmilson Campos.

Os organizadores aproveitam o momento de folia para conscientizar as pessoas sobre a importância de conservar o ecossistema do mangue. “Aqui tem gente de toda parte, de outros estados e até de outros países. Eu fico feliz de ver como o nosso carnaval vem crescendo. Pra mim é como se todos fizessem parte de uma única família: a família pretinhos do mangue”, acrescentou Campos.

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Os foliões não se intimidaram na hora de se lambuzar de lama.  A comerciante Rosa Nogueira, 57 anos, veio da cidade de Parintins, no Amazonas para conhecer a festa de Curuçá. “Já tinha vindo ao Pará algumas vezes, mas nunca no período do carnaval. É a primeira vez que participo de um bloco coberta de lama e eu adorei. Não pensei duas vezes em aderir à folia, porque afinal no carnaval vale tudo. Vou voltar mais vezes, com toda certeza”, disse a foliã, que acompanhou o desfile ao lado dos familiares.

Para quem vem de outro país, como a linguista alemã, Sabine Reiter, que mora em Belém há dois anos e meio e conheceu o carnaval de Curuçá pela primeira vez, a convite de amigos, a experiência foi mínimo curiosa. Mas se engana que a reação foi de estranhamento. Ela se disse encantada com o que presenciou pelas ruas de Curuçá. “Nunca tinha visto nada parecido antes. Vim por curiosidade e posso dizer que estou encantada. O Carnaval na Alemanha é totalmente diferente, isso aqui é único. E a mensagem ecológica é muito bonita”, contou a turista, que preferiu observar de longe para, segundo ela, “não cair na tentação de se sujar de lama”.

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Em 2010 o bloco “Pretinhos do Mangue” foi declarado Patrimônio Cultural do Estado do Pará, por meio da Lei nº 7.383, de 16 de março. Ao longo dos anos o bloco ganhou novos atrativos. Quatro carros alegóricos, todos feitos com material reciclado e ecologicamente corretos, trazem mensagens de preservação para o público. Um deles é o que conduz o mascote do bloco, um caranguejo gigante, e vem seguido do carro da ostra, com destaque para a mulata representante da beleza da mulher curuçaense.

A comerciante Cléo Ferreira, 42 anos, escolheu Curuçá pelo terceiro ano consecutivo para pular o carnaval. Ela bem que tentou fugir da lama, mas sem sucesso. “Aqui é diversão garantida. Trago todos da minha família, inclusive as crianças, que acabam se divertindo mais que os adultos. Não troco mais esse carnaval por nada. Eu até hesitei em não me sujar, mas não tem jeito, é quase impossível não entrar na brincadeira”. O bloco faz o seu segundo desfile nesta terça-feira gorda, dia 9.

Unidos da Prevenção

Com o slogan “Todos na folia contra a Aids, as hepatites virais e o mosquito Aedes Aegypti”, equipes da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) vem fazendo um trabalho intensivo de orientação junto aos foliões de Curuçá sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), hepatites e a propagação do mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya.

“Ao longo desses quatro dias de folia fizemos a distribuição de preservativos não somente entre os brincantes, mas também junto a feirantes, vendedores e quem mais estiver circulando por perto dos corredores da folia, e ainda chamando atenção para os cuidados que ajudam a evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypt”, explica a diretora da Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecciosas Parasitárias Especiais (Uredipe), Jane Durans.

A campanha vai distribuir, como faz anualmente nesta época, mais de um milhão de preservativos nos 144 municípios paraenses, além de esclarecer dúvidas para evitar a contaminação por DSTs. (Tatiane Dias)

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