No Tocantins, o rio Galhão empresta seu nome a realidades opostas: uma fazenda do tamanho de um quarto da área da cidade de São Paulo e uma comunidade descendente de escravos que tem na cozinha apenas sal e óleo. Um dos maiores celeiros de grãos do país, o Estado viu seu número de milionários crescer 510% na última década, mas 172 famílias ainda passam fome.

O contraste observado em Mateiros, município onde está o Galhão, se repete em outros pontos do Matopiba, região definida formalmente pelo governo federal, em maio, como a nova fronteira agrícola do Brasil.

O Matopiba, acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é promissor por ser uma das últimas áreas de expansão da agricultura de larga escala no mundo. A expectativa é que, na safra 2014­2015, ela produza 20 milhões de toneladas de grãos, quase 10% da produção nacional.

O sucesso do agronegócio e investimentos na indústria de agricultura e pecuária quintuplicaram o número de milionários no Tocantins. Na última década, a quantidade de pessoas com renda acima de US$ 1 milhão saltou de dez para 61 ­a maior alta do país, segundo a Receita Federal.

No mesmo Estado, 37,6% dos domicílios ­ou seja, 172 mil famílias­ enfrentam algum tipo de dificuldade na hora de colocar alimentos na mesa, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2013.

Vizinhos

Na Agrícola Rio Galhão, condomínio de produtores rurais paulistas dedicado ao cultivo de 5.500 hectares de milho e soja, o maquinário moderno se mantém a poucos quilômetros das enxadas da comunidade quilombola.

“É uma região que vem se desenvolvendo muito, recebendo investimentos de produtores do Sul e de empresas de capital aberto”, diz o empresário paulistano Sérgio Bueno, 47, cuja família comprou terras na região em 1986. Nos limites da fazenda de Bueno, ficam as casas de taipa com teto de palha
onde vivem cerca de 200 moradores da comunidade Galhão.

“Faz tempo que a gente está aqui. Os filhos e os netos são todos nascidos e criados nesta terra, ninguém nunca saiu”, diz a agricultora aposentada Maria de Lurdes Gomes, 59. Mãe de 12 filhos e avó de tantos que nem lembra o número, ela divide um aposento com o marido e quatro netos.

Enquanto as terras de Bueno produzem 12 mil toneladas de milho por safra, os moradores da Galhão plantam mandioca para comer e vendem o pouco que sobra.

Uma vez por mês, toda a família se reúne na casa de Maria para produzir farinha a partir da mandioca colhida. As filhas se revezam para mexer a farinha durante o preparo, enquanto os homens moem e secam a mandioca. “Não dura muito. Os meninos têm muita fome”, diz Maria.

Quilombola

No Tocantins, 27 comunidades são reconhecidas como quilombolas pela Fundação Cultural Palmares, mas nenhuma tem o título de posse da terra. “Antes a gente plantava arroz, feijão, milho, abóbora. Mas agora não. O espaço está pouco demais por causa das fazendas, estamos cercados”, reclama Maria, que recebe um auxílio de R$ 110 mensais do Bolsa Família.

O isolamento e a péssima condição das estradas dificultam a obtenção de alimentos que ela não planta mais, como arroz e feijão. Cerca de 50 quilômetros separam sua casa do mercado mais próximo, no centro de Mateiros (a 160 km da capital, Palmas).

Quando o filho de Maria consegue comprar um boi, os próprios moradores o abatem e dividem o produto entre as famílias. Maria salga as peças e as mantém penduradas no forro da cozinha para consumi­las ao longo das semanas.

Infraestrutura

O empresário Sérgio Bueno diz acreditar que a presença dos grandes grupos agrícolas possa desenvolver a infraestrutura da região.”Gerando mais empregos, melhora a qualidade de vida da população como um todo. Esta é a equação”, afirma.

A falta de asfalto nas estradas e de serviços básicos para a população é problema que, em sua opinião, pode ser revertido com a demanda das grandes fazendas.

A necessidade de insumos e de profissionais, como mecânicos e tratoristas, seria o catalisador do que chama de “economia satélite”. “Você tem toda uma corrente de melhorias que se forma, mas não é da noite para o dia”, afirma.

O governo estadual está formulando políticas para inclusão das famílias mais pobres, “ainda em estágio de diagnóstico”, diz a secretária de Trabalho e Assistência Social, Patrícia Amaral.

Enquanto isso, dona Maria segue seus dias à base de mandioca. “Nós precisamos de alguma ajuda, mas não sabemos nem a quem pedir.” (Folha Online)

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