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Dias mais quentes e abafados, precipitações mais escassas e bruscas, ilhas de calor sobre as zonas urbanas, aumento da sensação térmica e consequente encarecimento dos itens provenientes das culturas agrícolas que dependem das chuvas. Estas são algumas consequências do fenômeno meteorológico El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico e tem causado impacto em todo o planeta. As regiões mais afetadas por essas mudanças são as que estão localizadas próximas da linha do Equador, como é o caso do Pará, onde esses efeitos já começam a ser sentidos.

As mudanças climáticas que vem acontecendo em várias regiões do planeta catalisam as preocupações e mobilizam organizações internacionais, comunidade científica e entidades das Nações Unidas que defendem a manutenção da vida e proteção do meio ambiente. Também estão no foco dos debates suscitados por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste 5 de junho.

A Grande Belém e demais regiões do Pará vem registrando desde 2015 um aumento médio da temperatura em dois graus no período que corresponde ao verão amazônico, quando as chuvas ficam mais escassas. De acordo com o diretor de Meteorologia e Hidrologia da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Sema), Antônio Sousa, essa variabilidade climática é causada pelo El Niño que, entre outras alterações, é responsável pelo aumento da sensação térmica nesse período. Nas chamadas ‘ilhas de calor’ ela pode chegar facilmente aos 37º.

“Os oceanos são os grandes reguladores do sistema climático em nível global. Se o Pacífico aquece, isso altera os ventos e por consequência desfavorece a formação de nuvens na região amazônica. Na situação contrária, quando se dá o fenômeno conhecido como La Niña, o esfriamento do oceano favorece a formação de nuvens e a incidência de chuvas na região”, explica.

Estes eventos são cíclicos e podem ocorrer de dois em dois anos. Algumas análises já constataram um intervalo de até 10 anos para essas ocorrências. No caso das alterações de temperaturas atuais, no biênio 2015-2016 o El Niño veio com maior força do que em outros ciclos, como os registrados em 1982-1983 e 1997-1998. Por conta disso, segundo os especialistas, há uma grande probabilidade de que no período compreendido entre os anos de 2017 e 2018 a temperatura do Oceano Pacífico diminua, alternando o efeito atual, favorecendo a ocorrência das chuvas e propiciando um clima mais ameno, na casa dos 32°C (três abaixo do atual) na região amazônica.

As temperaturas de 35°C não são incomuns para quem vive no Pará. No entanto, Antônio Sousa alerta para existência das mencionadas ‘ilhas de calor’ que se formam nos centros urbanos, onde a maior concentração de veículos, a presença de construções em concreto que dificultam a circulação de vento e menor arborização contribuem para que o calor aumente. “O vento e a as árvores são reguladores naturais da temperatura nessas áreas. Sem isso, a sensação térmica aumenta e fica ainda fica pior nos meses mais quentes do ano, como setembro, outubro e novembro, considerado o mês mais seco, pois antecede o inverno amazônico”, explica.

De acordo com as instituições integrantes da Rede de Previsão Climática e Hidrometeorológica (RPCH) do Pará a previsão é de que o próximo semestre (junho, julho e agosto) o clima fique ainda mais quente, com ocorrência de chuvas apenas na Região Metropolitana de Belém e Baixo Amazonas.

Áreas verdes – Para contribuir com a preservação das áreas verdes da Região Metropolitana de Belém o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio) mantém sob sua gestão 15 mil hectares distribuídos em quatro Unidades de Conservação: Parque Estadual do Utinga, APA (Área de Preservação Ambiental) Ilha do Combu, Refúgio de Vida Silvestre Metrópole da Amazônia (Revis) e a APA Belém. Metade destas áreas são de proteção integral e a outra metade de uso sustentável.

“Estas áreas são fundamentais para a conservação do microclima, prevenção da erosão e manutenção da biodiversidade, de áreas para recreação, para agricultura familiar, turismo e ainda para a proteção de mananciais que abastecem de água toda a Grande Belém. A maioria dessas áreas são de várzea e a preservação desses biomas ajuda a conservar as fontes existentes neles”, explica Júlio César Meyer, gerente das Unidades de Conservação da Região Metropolitana de Belém.

Para proteger e manter estas áreas essenciais à manutenção do clima na cidade, o Ideflor-bio desenvolve atividades de orientação e educação ambiental principalmente junto aos jovens, conscientizando-os para a importância da conservação das áreas verdes, do descarte adequado do lixo e da utilização racional dos recursos naturais. Além disso, o Instituto mantém ações  de incentivo a produção agrícola sustentável.

“Trazemos alunos de escolas públicas para explicar a importância da preservação e assim criamos multiplicadores desta ideia. Hoje, no Pará, existem várias iniciativas ambientais de destaque, como o Programa Municípios Verdes, para incentivar a redução do desmatamento. Temos também os programas voltados aos trabalhadores da agricultura familiar, que tem sido orientados a produzir sem degradar. Tudo isso passa pela educação e pela maneira como a população da cidade ou do campo trabalha a ideia de preservação da biodiversidade”, explica Júlio César.

Agricultura – Além do calor, as mudanças climáticas também trazem consequências para o setor produtivo. Com o clima mais quente e a diminuição das chuvas, algumas culturas foram afetadas. De acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater), regiões como o Baixo Amazonas registraram uma queda entre 40% e 60% na safra do abacaxi em razão do estio, sendo que o Pará ocupava o primeiro lugar na produção do fruto há um ano. Já a mandioca teve uma queda de 30% na produção, o que refletiu no aumento do preço da farinha, seu principal derivado.

A produção de açaí, cupuaçu e bacuri também deve sofrer uma redução no segundo semestre. Somente o feijão foi beneficiado com o período de seca. Com menos chuvas, a colheita ocorreu mais cedo e o agricultor conseguiu escoar o produto no mercado, o que garantiu um melhor preço.

“As variabilidades climáticas também podem ocasionar diversos problemas à agricultura, como a incidência de pragas, doenças e plantas invasoras. A consequência disso é aumento do custo para manter a qualidade da produção, prejuízo este que acaba sendo repassado para o consumidor final. Por isso, é normal encontrar alguns produtos mais caros nos mercados e feiras”, explica Paulo Lobato, coordenador técnico da Emater.

Nos territórios onde a variabilidade climática é mínima ainda é possível manter um produção estável. No entanto, com a incidência de fenômenos como o El Niño estas áreas podem registrar um clima mais seco que o normal e surpreender principalmente o pequeno agricultor, que não dispõe de recursos para adequar a sua lavoura.

Paulo Lobato também alerta sobre a importância da conservação das áreas de reserva ambiental, o controle das queimadas e o incentivo à utilização de sistemas de produção sustentáveis. “Hoje temos uma legislação que favorece a preservação de áreas essenciais de floresta e mesmo a produção tem se adaptado a essa necessidade, com a adoção de modelos de produção de baixo impacto, como os sistemas agroflorestais, agrossilvopastoris e de Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPS), que utilizam o solo para diversas culturas com menos perda”, defende.

Além disso, segundo o coordenador, o controle das queimadas é essencial para a preservação do solo, da vida silvestre e do clima nestas regiões. “Todas estas iniciativas tem sido trabalhadas fortemente pelo governo do Estado e acredito que esta seja também uma forma de diminuirmos os efeitos que estas mudanças poderão causar na nossa produção”, explica. (Diego Andrade)

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