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Nos dias 29 e 30 de setembro, aconteceu na Aldeia Cocal Grande, localizada na Terra Indígena Apinajé, em Tocantinópolis, a 4ª Oficina de Troca de Experiências. O encontro teve como objetivo ensinar as principais técnicas sobre o coco babaçu, para fins da produção de óleo, mingau, sabão, carvão, bolos e extração da amêndoa.

Participaram os indígenas das Aldeias Abacaxi, Girassol, Olho D’água, Macaúba, Serrinha, Irepty, Brejinho, Prata e Cocal Grande. O evento foi uma realização conjunta entre a Associação União das Aldeias Apinajé (Pempxà), Prefeitura, Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Tocantinópolis, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Movimento Interestadual das Quebradeiras do Coco Babaçu do Tocantins (MIQCB).

As quebradeiras de coco e integrantes do MIQCB, Antônia Maria Bezerra, da cidade de Buriti do Tocantins e Belisa da Costa Sousa, da cidade de Sítio Novo do Tocantins, que lutam para manter a palmeira do babaçu em pé, a fim de garantir a sua sustentação econômica e sua cultura, foram convidadas para ministrar a oficina, que abrangeu inúmeras técnicas de manuseio e preparação do mesocarpo através da manipulação do coco babaçu. As participantes observaram bastante cada detalhe para depois inserir o conhecimento adquirido na própria comunidade indígena. Também ficou explicito que estas despertaram a sua capacidade de estar sempre buscando novos conhecimentos, como também repassando os já adquiridos para os demais.

Dona Antônia Maria Bezerra, disse que chegou ao Tocantins na década de 70 e desde que conheceu a profissão de quebradeira de coco, se apaixonou até os dias de hoje. “Essa profissão é muito gratificante, sustentei minha família toda através desta profissão. Já quebrei muito coco, mas hoje nós é que estamos quebradas, disse sorrindo. Doem muito minhas costas e isso dificulta a permanência nesta profissão, mas mesmo assim estamos lutando diariamente a fim de mantermos nossas tradições vivas através da nossa associação”, relatou.

Antônia Maria frisou que na cidade de Buriti do Tocantins, a qual ela mora, não há um incentivo por parte do poder público, e que Tocantinópolis estava de parabéns pelo apoio prestado aos movimentos e associações indígenas do município. “Não conseguimos apoio de nada do município de Buriti. Temos fé que iremos conseguir um apoio e levantar nossa Associação. Queremos deixar uma história para que nossa cultura não morra. Tocantinópolis está de parabéns pelo evento realizado, esta é segunda vez que participo e com certeza virei outras vezes”, afirmou.

Ainda segundo Antônia Bezerra, o trabalho em equipe é bastante produtivo e requer muita troca de experiências. “Gosto muito de trabalhar em intercâmbio, aprendemos muitas coisas e trocamos experiências juntos. Os grupos vão passando de um para o outro, isso é a melhor coisa do mundo, e aprender coisas novas é muito bom, enriquecemos nossas culturas e mantemos nossas raízes vivas, ou seja, conhecemos coisas novas e transmitimos o que sabemos”, finalizou.

A quebradeira de coco da cidade de Sítio Novo do Tocantins, Dona Belisa da Costa Sousa relatou que através dessas ações é possível se fazer novas amizades e principalmente transmitir por meio da profissão, novos ensinamentos para a comunidade indígena. “Estamos aqui para trocar experiências. Do babaçu tudo se aproveita e também são elaboradas receitas deliciosas tipicamente regionais e fáceis de preparar. Hoje através de muitas lutas, as mulheres possuem mais direitos e isso é graças ao trabalho em conjunto. Queremos que nossa profissão cresça muito mais e que saibamos escolher bem os nossos representantes para quando estiverem lá na Casa de Leis possam nos representar e garantir os nossos direitos”, frisou.

Corrida com Toras

Para comemorar o encontro, os indígenas realizaram a tradicional corrida com toras seguida de dança. Essas atividades são realizadas sempre com duas toras praticamente iguais. Os participantes se dividem em dois grupos de corredores “rivais”, cabendo apenas a um atleta de cada grupo carregar a tora, revezando-se em um mesmo percurso. As corridas se realizam no sentido de fora para dentro da aldeia, nunca de dentro para fora, ou mesmo dentro dela. A Corrida com Tora é sempre realizada ao amanhecer e ao entardecer. Como já era no entardecer, as corridas vindas de fora aconteceu no final da tarde.

A indígena Maria de Almeida Apinajé comentou que esses rituais representam a natureza e que essa cultura deve ser repassada para todas as gerações. “A corrida e dança são agradecimentos e um ritual que significa alegria. Essa tradição tem que ser repassada para os demais pra que não seja esquecida e nem se acabe. É uma cultura que não pode se perder, pois representa a natureza”, relatou dizendo que com a realização da oficina houve mais conhecimento e troca de experiências. “Nós não sabíamos fazer o sabão e nem a extração do mesocarpo, e agora com essa troca de experiências haverá um maior aproveitamento do coco. Eu aprendi a quebrar coco com os meus pais e meus avós, e agora estamos repassando essa tradição para os demais”, frisou.

O secretario para Assuntos Ecológicos, Emivaldo Aguiar que esteve acompanhando de perto a Oficina “Troca de Experiências”, disse que essa iniciativa deve estar sempre se repetindo, garantindo assim, que essas tradições sejam preservadas e mantidas dentro e fora da cultura indígena. “A Prefeitura de Tocantinópolis apoia diretamente todas as aldeias do município. Realizamos um trabalho conjunto entre a Pempxà e Funai, na certeza de que essas tradições serão mantidas ao longo da vida de cada indígena. Pinturas, corridas, cantorias e vários outros costumes indígenas é uma forma de expressar alegrias em torno de comemorações como esta. Acreditamos que a partir dessa divulgação a sociedade poderá conhecer um pouco mais da cultura indígena, o que garantirá um maior respeito pelos índios, bem como o próprio resgate dessa cultura, da qual deve ser sempre mantida em nosso meio”, afirmou.

O cacique da Aldeia Cocal Grande aproveitou a oportunidade e nos relatou que a oficina foi bastante proveitosa e que a partir deste encontro a cultura indígena sempre permanecerá preservada. “Essa oficina foi bastante proveitosa, pois desde os tempos dos meus pais temos essa cultura e isso não pode ser esquecido e nem deixar que morra. Queremos que os jovens indígenas não percam suas identidades, pois nos dias de hoje eles estão se inserindo mais na cultura dos brancos, do que na nossa. Eles querem ter motos, carros e assistir TV. Eles podem até ter veículos e acesso a esses meios de comunicação, mas que não percam a nossa cultura. Com a prática periódica dos costumes indígenas, eles não perderão a cultura e nem a nossa identidade”, comentou Josué Dias de Sousa Apinajé.

Segundo a servidora da Funai, Patricia Moojem Lemos, essa é 4ª edição da oficina. O projeto teve início na Aldeia Mariazinha, logo depois foi estendido para as aldeias Patizal, Girassol e agora foi a vez da comunidade Cocal Grande receber essas experiências. (Dirceu Leno)

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