081929belemO quintal de dona Maria Lima termina onde começa o Utinga, parque ambiental que abastece Belém do principal reservatório de água da cidade, o Lago Bolonha. Maria Lima mora na comunidade do Pantanal. É assim que os moradores dessa invasão denominam o espaço em que moram, um amontoado de pequenas casas de madeira e construção em alvenaria. Está às margens da reserva uma das principais áreas verdes da cidade. Uma das poucas que ainda resistem. A área do Utinga tem sido ameaçada cada vez mais pela expansão desordenada da cidade. Rodeada por invasões, a reserva grita por socorro, assim como quase todas as áreas verdes da cidade. Belém sufoca entre asfalto, concreto, vidro e cimento e clama por mais verde.

“A cidade está crescendo desordenadamente. Estamos perdendo as poucas áreas verdes que ainda restam. A consequência é que a cidade vai ficar cada vez mais quente”, diz o pesquisador do museu Emílio Goeldi Leandro Ferreira. Segundo o pesquisador, as áreas verdes que sobraram, como o próprio parque do Utinga, estão sendo alteradas pela expansão urbana. “Não temos mais para onde ir”, diz Ferreira.

Na avaliação do pesquisador, o crescimento vertical de Belém também irá ocasionar um aumento na sensação de calor, porque o vento será barrado pelos grandes edifícios. “Todo mundo quer ter a visão para a baía. Os edifícios serão cada vez mais altos, formando uma grande barreira e a sensação térmica de Belém só tenderá a crescer”.

O que agrava a situação é que a arborização da cidade tem se tornado cada vez mais insuficiente. Na avenida Duque de Caxias, uma das mais propaladas obras do prefeito Duciomar Costa, o que se vê são palmeiras, o mais inadequado tipo de árvore que se pode imaginar numa cidade como Belém. “É uma arvore que não dá sombra. A avenida não oferece conforto térmico”, diz Leandro Ferreira.

Empreendimentos e invasões culpados?

O Museu Emílio Goeldi e o Bosque Rodrigues Alves são dois oásis na cidade. As outras áreas verdes só resistem porque estão controladas pela Aeronáutica e pela Marinha. Mas é só visualizar qualquer imagem de satélite para perceber que já não existem mais outras áreas similares na cidade. E a culpa é democrática. Tanto envolve a classe média e alta como a população mais pobre. De um lado, a especulação urbana dos grandes condomínios e dos edifícios. Do outro lado as invasões que ocupam desordenadamente locais protegidos e até então preservados.

“O Utinga é um exemplo. Está cada vez mais ameaçado pelas invasões”, diz Leandro Ferreira. Outras duas obras também avançam nas áreas verdes de Belém. Na avenida Júlio Cesar, a construção de um anel viário ou rotatória já fez com que desaparecesse um fragmento de mata que estava nas cercanias do Sistema de Proteção da Amazônia, o Sipam. E o prolongamento da avenida Independência acendeu o debate se a obra cortaria ou não o parque ambiental municipal.

Como a cidade cresce sem planejamento, Belém perde os fragmentos de verde que ainda possui. “A cidade colapsou. O fato é que as pessoas precisam olhar o verde como parceiro, e não como ameaça”, avalia o pesquisador.

É dessa forma que a comunidade ribeirinha da estrada da Ceasa enxerga a mata que a cerca. São cerca de 30 casas, com famílias que se originaram quase todas de Maria Petrolina dos Santos, 80 anos. Ela tinha 20 anos quando chegou ao local com o marido carvoeiro. “Aqui todo mundo é meio parente”, diz ela, ainda se recuperando de um derrame cerebral ocorrido três anos atrás.

A comunidade vive da pesca de peixe, do açaí, do cacau e do camarão. Monitoradas pela Embrapa, a quem pertence a terra, as famílias não permitem invasões de estranhos nem derrubam mais do que precisam da vegetação ao redor. Para atravessar a comunidade, é preciso andar por pequenas pontes, fincadas na terra alagada. “Aqui, apesar da falta de transporte, é mais tranquilo de morar. E a gente não quer ir para outro lugar. Só quando morrer”, diz Luiz Alberto, filho de Petrolina.

Mãe de cinco filhos, Silene Santos Silva, 27 anos, também mora na beira da estrada da Ceasa. Cercada por uma das poucas grandes áreas verdes da cidade, Silene ainda está se adaptando. Há três meses trocou Moju pela casa em Belém, com rio na frente e muitos pés de açaí ao lado. De vez em quando vê cobras e quatis atravessarem a pista. Os filhos, todos pequenos, se esbaldam no rio quase particular. Mas, se perguntada se faria alguma diferença ter a vegetação toda posta abaixo, Silene tem a resposta na ponta da língua: “tanto fez como tanto faz”. (Diário do Pará)

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