“A Metamorfose. Porque me fez pensar muito no ser humano”: foi essa a resposta de Marcos* ao ser indagado sobre a narrativa que lhe marcou, enquanto leitor, no Clube dos Livres. Referindo-se à mais conhecida obra do escritor tcheco Franz Kafka, numa leitura que contextualiza dramas psíquicos da condição humana, Marcos é um dos participantes de uma ação literária para os detentos da Cadeia Pública de Tocantinópolis. O projeto de extensão – coordenado pela professora Aline Campos, do colegiado de Pedagogia do Câmpus de Tocantinópolis – completa dois anos este mês, e com uma série extensa de conquistas desde a sua implementação.

Atualmente, 15 homens compõem o grupo de leitores. Pela proposta, um livro é lido por mês e, ao longo das semanas, a obra é debatida entre os participantes e os mediadores do Projeto. Finalizado o livro, os leitores produzem resenhas críticas que, se bem avaliadas, servem à remição da pena. 

Tal como Kafka, autores de peso integram a lista literária consumida pelos participantes: Ariano Suassuna, William Shakespeare, Molière, Paul Sartre, Bertolt Brecht estão entre os nomes que já passaram pelas mãos dos leitores e fomentaram as reflexões coletivas no Clube dos Livres. Hoje, o projeto de extensão firma-se para além das obras literárias: alfabetização de adultos, ingresso no Ensino Superior à Distância, publicação de livro pelos integrantes do Clube estão entre os exemplos dos passos firmes alcançados pela ação.   

Clube dos Livres teve início em fevereiro de 2018, numa parceria firmada entre a UFT e a Cadeia Pública de Tocantinópolis desde junho de 2017. Consolidando a política de leitura no cárcere, a iniciativa contribui com as atividades educativas promovidas na unidade prisional.

A ideia partiu de um aluno da professora Aline, durante uma aula no curso de Pedagogia. Instigado pelos relatos da professora sobre suas práticas educativas em presídios de São Paulo, o aluno então sugeriu à Aline que tentasse algo parecido na Cadeia Pública de Tocantinópolis, dada a falta dessa espécie de proposta na região. A partir daí, o projeto começou a ser elaborado coletivamente, com a participação de professores, alunos e agentes públicos atuantes no contexto prisional. 

A princípio, a atividade foi recebida com desconfiança pelos detentos: “Eles não sabiam o que a gente pretendia, nem o que ganhariam com isso”, conta Aline. Com o tempo, as relações de confiança foram sendo estabelecidas e, hoje, o Clube dos Livres é um sucesso na unidade, tanto que está com uma lista de espera de cerca de 10 candidatos. “Eles apostam muito no nosso trabalho e são parceiros em tudo o que a gente propõe”, frisa a coordenadora. 

Para o diretor da Cadeia Pública de Tocantinópolis, José Osvaldo Fontinelle Barbosa Filho, a ressocialização por meio das atividades do Clube dos Livres tem possibilitado, aos detentos, novas perspectivas de vida enquanto cidadãos. Além disso, ele ressalta ter percebido um trato mais humano, por parte dos servidores, em relação aos reeducados da unidade penal. “A iniciativa também gera, em cada um de nós, a plena consciência de que a pessoa em privação de liberdade tem os mesmos direitos de acesso à educação do cidadão que está lá fora, no meio social”, ressaltou, ainda, o diretor.

Jonas, por exemplo, credita ao Clube dos Livres o bom desempenho que obteve no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja): “Tive muito desenvolvimento na leitura e na escrita. Fui aprovado no Encceja e, inclusive, superando a nota que eu pensei ter tirado na Redação”, relatou, animado.

Já Márcio, de leitor de, no máximo, “rótulos de supermercado”, conforme ele conta, agora busca o espaço da biblioteca  da unidade – também uma conquista da parceria – para aprimorar o hábito: “o Projeto trouxe para a gente este espaço e tempo de leitura”. 

“Eu achava que a leitura era algo para quem tinha intimidade com os livros”, diz Cláudio, egresso da Casa de Prisão de Tocantinópolis e um dos primeiros participantes da proposta de extensão. “O Clube me possibilitou ver que todo mundo pode ter um ponto de vista a respeito de uma história. Quando partilhados, nossos pontos de vista constroem uma visão maior sobre uma obra – e, a partir dela, podemos discutir assuntos da nossa sociedade”. (Gihane Scaravonatti)

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